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Corpos manipulados: de que forma a deepfake perpetua a objetificação feminina

Tecnologia é utilizada como arma de difamação e controle, afetando a identidade feminina em uma estrutura social machista

As deepfakes impactam a reputação e a vida de mulheres e meninas (Foto: Ana Clara Sousa) 

Historicamente, as mulheres são um grupo que sofre diversos tipos de violência em uma sociedade patriarcal, sendo tratadas como inferiores e, principalmente, consideradas objetos e propriedades dos homens, sendo que, até hoje, mesmo após diversas conquistas de direitos, ainda há essa ideia e comportamento entranhados em parte do público masculino. É a partir disso que pessoas se sentem no direito de usurpar a imagem feminina para gerar vídeos falsos, chamados deepfakes, que podem causar danos psicológicos e ferir a reputação desses grupos.

Capítulo 1: O desenvolvimento das deepfakes 

Em 2017, pesquisadores do Google lançaram o artigo “Attention is all you need”, no qual desenvolveram um modelo que, por meio da separação da frase em pedaços, ajuda a prever o que virá em seguida e também é capaz de entender a frase pelo contexto, dando às palavras-chave maior peso, possibilitando o aprendizado com dados.

   

Foi por meio dessa base que a empresa OpenAI, responsável pelo lançamento do ChatGPT, conseguiu treinar um modelo de inteligência artificial generativa (IAG). Eles notaram que, quanto mais inseriam dados, mais a inteligência artificial se desenvolvia, aprendendo o padrão de linguagem e usando isso para gerar novas frases. 

   

Atualmente, empresas como Alphabet, OpenAI, Anthropic, Meta e DeepSeek disputam para ver qual irá se aprimorar mais e dominar o mercado de IA. Essas empresas investem milhões de dólares em infraestrutura, pois treinar modelos é caro e exige alto poder computacional, que fica contido em data centers, locais que abrigam os servidores, sistemas de armazenamento de dados e equipamentos de redes, possibilitando que as inteligências artificiais funcionem.

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Antes da Inteligência Artificial Generativa (IAG), já haviam técnicas que permitiam a manipulação de imagens, tanto de forma manual ou quanto utilizando softwares. Embora esses métodos possibilitassem a distorção, ainda sim, eram limitados e restritos à profissionais e pessoas com grande poder aquisitivo, além das alterações serem mais facilmente identificadas, através de ruídos visuais e inconsistências na iluminação. 

 

Em 2014, Ian Goodfellow e outros pesquisadores escreveram o artigo “Generative Adversarial Nets”, onde apresentam as GANs (Redes Adversárias Generativas) — a base para o desenvolvimento das deepfakes — que funcionam colocando dois algoritmos frente a frente, um modelo generativo e um discriminativo alimentados com um vasto banco de dados. No artigo, os autores relacionam o modelo generativo à uma equipe de falsificadores que produzem dinheiro falsa e tenham usá-lo e o modelo discriminativo seria análogo aos policiais, que buscam identificar a farsa. A competição entre ambos os grupos leva ao aprimoramento das técnicas até que o dinheiro falso seja indistinguível do verdadeiro.

 

Por necessitar de um amplo banco de dados, os primeiros alvos de deepfake foram celebridades e autoridades, como a ex-primeira dama Michelle Obama que, em 2018, foi vítima dessa tecnologia ao ter seu rosto sobreposto ao de uma atriz de filmes pornograficos em um vídeo que circulou pelo Reddit. Assim, ao comparar os modelos de difusão e aplicativos de troca de rosto, pode-se identificar que a principal diferença é que há a geração de materiais realistas e a possibilidade de usar o rosto de uma pessoa real em contexto falso.

 

Ao comparar as técnicas de manipulação de imagens anteriores, como Photoshop, e as atuais, através dos aplicativos de troca de rostos, percebe-se que essa prática tornou-se mais acessível aos usuários, que não necessitam entender sobre linguagens de programação ou conhecimentos técnicos, visto que essas ferramentas, embora sejam caras e haja limitação de tempo, ainda estão à disposição dos usuários, que podem comprar créditos para desenvolver o material que desejam manipular. 

Infográfico produzido no Canva com dados retirados da SimilarWeb (Créditos: Bianca Reis)

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Infográfico produzido no Canva com dados retirados do infográfico do Reality Defender(Créditos: Bianca Reis)

Outro aspecto dessa problemática, é que a popularização das redes sociais faz com que as pessoas postem fotos suas online, que podem ser usadas para a geração de deepfakes. O verdadeiro perigo nisso está no fato de que as fotos de qualquer pessoa comum pode tornar-se deepfake, com centenas de imagens geradas por minuto e afetando a credibilidade da própria vítima, que tem sua palavra colocada em xeque pela qualidade realista do conteúdo.

 

Assim, a popularização da IA tornou-se uma porta de entrada para o uso da manipulação de imagens e vídeos, pelo seu baixo custo e alta disponibilidade, exigindo, não mais que o internauta tenha conhecimentos sobre programação e um computador potente, mas sim, que ele envie um prompt — um comando fornecido a uma IA para que ela gere uma resposta. A partir desses pontos, é imperativo pensar como as deepfakes afetam a vida das pessoas mas, especificamente, das mulheres, que têm sido a maior parte dos alvos desde o início das deepfakes.

Capítulo 2: A exposição digital como risco

Desde o advento da internet no fim da década de 1960, as redes sociais se popularizaram e alteraram a forma como nos comunicamos e interagimos uns com os outros. De acordo com o Relatório de atualização global semestral digital de 2026, elaborado pelo Datareportal em parceria com We are Social e Manochi, o número total de pessoas usando a internet alcançou 6,12 bilhões no início de abril deste ano, quase três quartos da população mundial. Além disso, existem cerca de 5,79 bilhões de identidades globais de usuários de mídia social, o equivalente a 69,9% da população global.

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Infográfico produzido por Ana Clara Sousa com auxílio da ferramenta de inteligência artificial ChatGPT (OpenAI), utilizando dados da GWI (Q1 2026), publicados no relatório Digital 2026: Global Overview Report, do DataReportal. 

Segundo Jonatan Rodrigues, escritor do artigo “O que são as redes sociais e para que servem”, publicado pela RD Station, essas plataformas permitem a conexão entre pessoas, o compartilhamento de conteúdos e a interação com outras pessoas e com marcas. Estimulando, além da interação digital, a comunicação, o entretenimento, o networking, as vendas e a exposição da vida pessoal dos usuários por meio de imagens e vídeos publicados. 

   

Apesar de servirem como meio de gerar conexão com amigos e familiares, essas manifestações colaboram para a construção de um grande acervo de materiais que podem servir como base para o treinamento de inteligências artificiais e para a geração de conteúdos falsos. Em outras palavras: nada impede que a tecnologia seja utilizada para causar danos a pessoas comuns, apesar de pessoas amplamente conhecidas serem alvo com maior frequência.

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De acordo com o artigo Deepfake: A evolução das fakenews, de Adriano Cesar Molina e Orlando Leonardo Berenguel, 96% dos vídeos deepfake na internet são de conteúdo pornográfico não consensual, sendo as mulheres e meninas os principais alvos. Segundo a professora Nicoli Tassis, jornalista e docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) que dedica suas pesquisas ao estudo da relação entre narrativas midiáticas e gênero, esses conteúdos se configuram dentro da violência de gênero, especialmente por ataques ao corpo feminino, à sexualização, à hipersexualização e ao tratamento da mulher como objeto. 

   

Além disso, a violência de gênero é determinante sobre o tipo de imagem que vai ser manipulada e como essa imagem vai ser manipulada. Tendo em vista a circulação de conteúdos falsos pornográficos no ambiente digital, Tassis afirma que as mídias sociais se tornaram parte relevante e expressiva da nossa vida, não havendo, hoje, uma divisão entre a vida concreta e a vida virtual.

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Nicoli Guedes Tassis, docente do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia (Foto: Acervo pessoal de Nicoli Guedes)

Capítulo 3: Da objetificação às deepfakes pornográficas

    Um caso que se tornou 

a 100% das pessoas que têm sua figura tratada dessa forma. 

O artigo “Sexualidade: perspectiva histórica e significação cultural”, de Márcia Graminho e Jean Carlos Miranda, apresenta que, durante o período paleolítico, havia uma supervalorização da figura feminina, o culto a sua fertilidade e a concepção da sexualidade como algo sagrado e divino. O sistema matriarcal era predominante, sendo as comunidades comandadas pelas mulheres, que atuavam em cargos sociais vitais para o funcionamento dos agrupamentos. 

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No entanto, esse cenário começou a mudar já no período Neolítico, quando diferenciações começaram a germinar na sociedade grega e resultaram na inversão dos papéis de poder que existiam até o momento, com o homem passando a exercer funções controladoras e a mulher ocupando posições de semiescravização cultural. Esse cenário foi se estabelecendo em cada vez mais lugares do mundo, tornando-se a norma.

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A desconsideração dos aspectos emocionais e psicológicos das mulheres e sua redução a propriedade do marido, além da negação do acesso por elas à liberdade sexual, contribuíram para a objetificação que se tem, hoje, da imagem feminina. Neste cenário, segundo o artigo “A objetificação e sexualização da mulher na cultura, um estudo em Brasília”, de Núbia Esthefany de Jesus Rocha e Marina Weber de Alencar, a aparência das mulheres passa a importar mais do que outras singularidades que as caracterizam enquanto indivíduos e seus corpos começam a ser objetificados em diversos sentidos, considerados, sobretudo, objetos de desejo e prazer.

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Cartaz acerca do assédio sexual contra mulheres no Bloco 5S, na Universidade Federal de Uberlândia (Foto: Ana Clara Sousa)

É importante observar que este contexto antecede e, portanto, potencializa a criação de formas de expor o corpo feminino enquanto objeto, como ocorre na geração de conteúdos pornográficos falsos. De acordo com Luciano Vieira Lima, professor e especialista em Inteligência Artificial, a tecnologia de geradores de imagens foi crescendo a partir dos anos 2000, sendo que a maioria dos utilizadores pretendia fazer imagens falsas que tinham a mulher, enfatizada na posição de objeto de cunho sexual, como alvo de manipulações.

A professora Tassis afirmou, ainda, que essas publicações geradas e manipuladas configuram uma forma de violência tão material e bruta como certas violências físicas, ocasionando desdobramentos psicológicos e sobre a identidade feminina, além de fomentar no imaginário social atos violentos que ultrapassam a materialidade das telas.


De acordo com a lista de mais de 150 estatísticas deepfakes da Bright Defense, publicada em março de 2026, 80% do conteúdo deepfake compartilhado em canais na plataforma Telegram são pornográficos e 96% a 98% de todo o conteúdo deepfake disponível online são compostos por imagens explícitas não consensuais, sendo mulheres 99% a 100% das pessoas que têm sua figura tratada dessa forma. 

   
Um caso que se tornou marcante foi o da  jornalista Rana Ayyub, que, em 2018, foi alvo de um ataque que incluiu a produção e disseminação de um vídeo de deepfake pornográfica após entrevistar o partido governante BJP indiano e pedir justiça por uma criança que foi vítima de estupro por dias e foi assassinada.

marcante foi o da  jornalista Rana Ayyub, que, em 2018, foi alvo de um ataque que incluiu a produção e disseminação de um vídeo de deepfake pornográfica após entrevistar o partido governante BJP indiano e pedir justiça por uma criança que foi vítima de estupro por dias e foi assassinada.

Capítulo 4: A mercantilização do corpo feminino

Além de serem usadas como vingança e para fins puramente difamatórios, as deepfakes também são usadas para obtenção de lucros, com a comercialização desses materiais, que circulam muito mais amplamente que os conteúdos verdadeiros.

   

É o que fala a professora Nicoli Tassis, “Fora que a gente tem que entender que, uma vez que uma imagem dessa circula em rede, gente, ainda que as pessoas possam saber que aquela imagem é falsa, não há como a gente desver aquilo que a gente já viu. Então, ainda que as pessoas possam até ter consciência, por exemplo, que a imagem de uma mulher desnuda ali circulando na rede não é exatamente ela, houve uma manipulação ali de uma ferramenta de inteligência artificial. Ainda assim, esta imagem se materializou e circulou entre as pessoas.”

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Ilustração feita no Canva demonstra como as imagens postadas em redes sociais se tornam base para a geração de imagens falsas, que possuem mais engajamento (Créditos: Bianca Reis)

Um caso recente exemplifica bem essa violência por via das deepfakes sexualizadas no meio digital: nas eleições para prefeitura de São Paulo em 2024, as candidatas Maria Helena e Tabata Amaral, tiveram imagens pornográficas falsas produzidas e difundidas em sites adultos. Ou seja, além da exposição feita, algumas pessoas ainda usam essas manipulações para comercializar conteúdo adulto, lucrando em cima de vídeos falsos e reforçando estereótipos, rebaixando a mulher a apenas uma forma de saciar o desejo, principalmente, masculino.

   

Essa dinâmica é ilustrada pela criação de perfis falsos para atrair possíveis interessados em comprar conteúdo adulto. A BBC revelou, em matéria, que os manipuladores usaram a imagem da influenciadora Riya Ulan, para gerar uma mulher similar com pele negra, que se sexualiza em seus vídeos no TikTok. Isso demonstra como essas contas reforçam estereótipos de gênero e raça e, sobretudo, lucram com a venda de um corpo feminino que não existe — uma deepfake.

Reportagem da BBC denuncia caso de lucro financeiro com imagens manipuladas (Foto: Ana Clara Sousa)

Sobre esse contexto, Tassis questiona: “Por que todas as vezes que a gente ataca uma mulher, a gente ataca pelas vias do corpo e da sexualidade dessa mulher? Se eu quero descredibilizar, por exemplo, uma mulher que está numa luta política ou que vai assumir um alto cargo numa empresa, por que isso sempre passa pelo âmbito dos afetos e das relações? Por que eu preciso fazer essa mulher ficar nua?”. Ou seja, porque utilizar o corpo e a imagem de mulher para lucrar? A quem serve o reforço de estereótipos? 

Cartaz reivindicando mais segurança nas universidades para as mulheres, demonstrando a vulnerabilidade e medo que elas enfrentam (Foto: Ana Clara Sousa)

A pesquisadora supracitada traz uma possível resposta a esse cenário: “Então, me parece, nas minhas pesquisas hoje, que no final das contas é um ódio a tudo que é considerado feminino.”

Capítulo 5: A realidade por trás da deepfake

A vida dessa mulher era como a de outras pessoas: tinha altos e baixos, mas ela superava os desafios com disposição, sempre buscando ver o lado positivo das coisas, ou, ao menos, tendo a certeza de que nenhum problema era eterno ou tão ruim assim. Um dia, tudo mudou. Foi um dia como qualquer outro, acordou, arrumou a cama, fez o café da manhã para a família. Na hora do almoço, saiu de casa para buscar uma panela que tinha emprestado a uma parente. Quando voltou, o maior desafio de sua vida começou: teve uma discussão intensa com o marido, foram muitos gritos, acusações e ameaças. 

   

Quando o dia terminou, estava arrasada, chorava muito por causa do comportamento do marido; a briga, o susto, o desespero e o medo ainda estavam bem vividos em sua mente, como se não tivesse passado nem um minuto desde o conflito. Dormiu fora de casa naquela noite. Na manhã seguinte, voltou para casa e nunca mais teve um longo período de paz. Dentro de casa, as discussões eram frequentes e a pressão psicológica era cada vez maior. Sempre que ela tentava colocar um fim no relacionamento, o marido não deixava. Tudo foi ficando tão intenso e sofrido que ela buscou apoio judicial, entrou com uma ação por meio da Lei Maria da Penha, conseguiu se separar e obteve uma medida protetiva.

     

O marido não se contentou com o fim do relacionamento. Começou a usar as redes sociais para atacá-la: xingava e difamava os filhos dela, a mãe e os irmãos também. Desrespeitava as autoridades que estavam envolvidas no caso. Depois de alguns meses se sentindo incapaz de proteger seus amados, as acusações à mulher vieram, diretamente, com imagens manipuladas e que feriam, ainda mais, sua integridade. E, embora tivesse sido proibida de ver redes sociais por profissionais de saúde mental, de alguma forma, as notícias das difamações chegavam a ela. Eram mais de 30 publicações por dia, “nunca acaba, é um inferno”, define, “agora ele está preso, parou com as postagens, mas sobraram as consequências”. Por conta desse cenário de intenso sofrimento psicológico, a vítima teve seu histórico de sobriedade interrompido, retornando ao consumo de substâncias químicas como forma de escape,“E eu simplesmente, com tudo isso que passou, eu não consegui segurar a onda e tive essa recaída".  

   

Agora, ela vive um dia de cada vez e está em recuperação, mas continua com medo. O agressor sabe muito bem sobre tecnologias, principalmente inteligência artificial, para distorcer e criar deepfakes para desmoralizá-la. Os impactos foram “financeiro, foi emocional, foi psicológico, foi todos os impactos possíveis que uma pessoa pode ter na vida”. A religião se tornou algo que a fortalece: “Eu tenho uma firmeza espiritual muito forte, mas, mesmo assim… Fui e sou extremamente abalada”. Sua perspectiva de vida mudou, e ela entende que as redes sociais e a IA podem ser utilizadas tanto para o bem quanto para o mal.

     

Se a manipulação de conteúdos e a publicação de desinformação online já foram suficientes para causar sofrimento à vida dessa mulher, é preciso pensar sobre a extensão dos danos causados pelas deepfakes. É sobre o mau uso da tecnologia e forma como isso afeta as mulheres ao reforçar estereótipos e violências que a professora Nicoli trata na entrevista abaixo:

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Entrevista com a pesquisadora Nicoli Tassis
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Site da Sentity AI, plataforma que utiliza inteligência artificial para identificar conteúdos gerados ou manipulados pela tecnologia. (Fonte: Captura de tela do site da Sensity AI, realizada por Ana Clara Sousa)

Capítulo 6: Propostas de resolução até o momento

No Brasil, alguns projetos e normas servem como proposta de resolução para o enfrentamento das deepfakes pornográficas contra mulheres, buscando enquadrar a criação e divulgação desses conteúdos em crimes já existentes, mas com punições mais severas. A Lei n° 15.123/2025 altera o Código Penal para estabelecer que a pena de violência contra a mulher é aumentada de metade se for cometida mediante o uso de inteligência artificial ou recurso tecnológico que altere a imagem ou o som da vítima. 

   

Na mesma linha, o Decreto n° 12.976/2026 define como “conteúdo íntimo” qualquer imagem ou vídeo que exponha nudez ou ato sexual, mesmo que tenha sido produzido ou manipulado por IA. A divulgação ou registro não autorizados desses materiais são classificados como violência contra mulheres em ambiente digital.

   

Quanto à amenização dos danos após a publicação feita, o mesmo decreto determina que os provedores devem tornar indisponível conteúdo íntimo gerado por terceiros em até duas horas após notificação da vítima ou representante, devendo também o material ser marcado digitalmente para que seu reenvio seja bloqueado de forma automática. Caso os provedores não removam o conteúdo após notificados, podem ser responsabilizados solidariamente pelos danos. O documento impõe, ainda, que os provedores devem disponibilizar espaço específico, permanente, gratuito, destacado e de fácil acesso destinado ao recebimento de notificação e ao tratamento de denúncia referente a conteúdo íntimo.

   

Um grupo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveu, em 2020, um aplicativo que possibilita realizar pedidos de medida protetivas para mulheres vítimas de algum tipo de violência sem que elas precisem se deslocar. Chamado “Maria da Penha Virtual”, a plataforma atende apenas municípios do Rio de Janeiro. Na mesma linha, o Distrito Federal disponibiliza, em seu site, um serviço de registro de ocorrência intitulado “Maria da Penha On-line”. A violência pode ser patrimonial, moral, física, sexual e psicológica, incluindo a publicação de fotos e vídeos íntimos.

   

Na Dinamarca, em junho de 2025, o governo apresentou uma proposta de emenda à sua Lei de Direitos Autorais de forma a tratar o corpo e as características físicas e vocais de um indivíduo como uma espécie de propriedade protegida. A medida, surgida em meio ao desenvolvimento de tecnologias que permitam a criação de conteúdos deepfakes, pretende reprimir a criação e disseminação desses conteúdos, além de proteger as pessoas do uso não consentido de seus atributos físicos, permitindo, teoricamente, que exijam a remoção do conteúdo pelas plataformas responsáveis. 

   

A emenda entende como infração a reprodução, a difusão ou uso público de simulações realistas das características de um indivíduo sem seu consentimento, proteção que se estenderá por 50 anos após a morte da pessoa, decisão que pretende preservar a dignidade dos vivos e a memória dos falecidos.

   

Há ainda iniciativas que, a partir da IA, objetivam a identificação de conteúdos manipulados. A plataforma Sensity AI, ativa desde 2018, possibilita a identificação de vídeos e rostos gerados por redes adversárias generativas, modelos generativos baseados em aprendizado profundo que processam dados e fazem parte da tecnologia que possibilita a criação das deepfakes.

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De acordo com Lima, “a melhor coisa que você tem contra os deepfakes são as próprias IAs, por enquanto”. Ele aponta duas perguntas essenciais que podem contribuir para que a própria tecnologia identifique as manipulações: "Quais são as inconsistências nessa imagem? Os padrões são tipicamente humanos ou foram criados por máquina?”. Duas questões simples, mas que ajudam a detectar cerca de 90% das imagens, segundo o profissional.

Paulo Aguiar dá dicas para identificação de conteúdos falsos manipulados por IA. (Reprodução Instagram)
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Entrevista com o especialista em IA, Luciano Lima, que reafirma entraves nas propostas governamentais e civis (Fonte: Captura de tela da entrevista, feita no Google Meet, realizada por Ana Clara Sousa)

Capítulo 7: E os impasses?

Apesar das soluções apresentadas por grupos da sociedade e do governo, existem entraves que as tornam, em partes, ineficazes. Um desses impasses é, por exemplo, o fato de que as tecnologias de IA se desenvolveram mais rápido do que as legislações, fazendo com que houvesse muitos crimes, como o mau uso das deepfakes, que ficaram sem punição adequada. Além disso, as leis que surgiram são recentes e ainda estão em fase de adequação, sendo desconhecidas para muitas pessoas.

      

Outro entrave é a dificuldade de rastreamento de crimes cibernéticos, com a grande replicação que esses conteúdos têm, tornando quase impossível descobrir qual foi o perfil que primeiro postou, e, portanto, criou determinado conteúdo. O especialista Luciano Lima afirma que “Previmos que isso ia acontecer, coisas assim deveriam ter uma regulamentação, soltar uma ferramenta, é como dar uma faca para uma pessoa, você não sabe o que ela vai fazer com isso. Tivemos o caso do Grok, IA do X (antigo Twitter), que gerou 6.700 imagens por dia de casos sexuais, chamado Trend do Biquíni.” Nesse contexto, a facilidade de acesso à ferramenta é outro obstáculo, pois pode ser usada de forma maliciosa, sem que a plataforma proíba a geração de vídeos e imagens impróprios e constrangedores.

Essas dificuldades também podem ser associadas à falta de uma legislação que  regulamente a inteligência artificial, equilibrando o desenvolvimento tecnológico com a proteção dos direitos humanos. Atualmente, está em trâmite o Projeto de Lei n° 2.338/2023 na Câmara dos Deputados. Esse projeto busca regulamentar o uso da IA enquanto o Projeto de Lei nº 1.884/2025, que está esperando o parecer do relator da Comissão de Desenvolvimento Econômico (CDE), propõe a regulamentação das tecnologias de deepfake e estabelece penalidades para o uso malicioso. Embora esses projetos existam, nenhum foi votado até o momento, além de não haver penalidades para determinados usos, como a programação de uma IA para assediar alguém digitalmente.

     

Por fim, outro problema é a dificuldade que algumas pessoas têm em reconhecer conteúdo falso. Pessoas que não têm muita afinidade com a internet, como idosos, costumam não conseguir identificar esse tipo de conteúdo. Embora esse grupo seja uma preocupação, não se deve esquecer que as tecnologias estão sempre em desenvolvimento, tornando-se extremamente similares à realidade, o que pode dificultar para outros grupos conseguirem distinguir o real do enganoso. 

     

Abaixo, um vídeo do influenciador e especialista em IA, Paulo Aguiar, com dicas sobre como se proteger contra esse conteúdo:

Capítulo 8: Então, o que fazer?

Tendo em vista as dificuldades que cercam as resoluções propostas, quais seriam as medidas mais eficazes para contornar o problema das deepfakes pornográficas? O primeiro passo é ser capaz de reconhecer ou, ao menos, duvidar da veracidade de conteúdos que circulam e podem ter sido gerados ou manipulados por inteligência artificial. 

   

Em reportagem acerca da tecnologia, o G1 aponta alguns sinais de que o material se trata de deepfake: “Movimentos faciais estranhos, sincronia perfeita entre boca e fala, piscadas pouco naturais, expressões rígidas e deformações em partes do corpo, como mãos com número incorreto de dedos ou movimentos fora do padrão humano”. Para a identificação, também é válido contar com verificação de fontes e com ferramentas, como a Sensity IA, citada anteriormente, que contribuam para a detecção de manipulação.

   

Para Tassis, se a sociedade contribui para validação, circulação e proliferação desses materiais, é dever dela, primordialmente, fornecer também vias de enfrentamento para esse problema. A postura deve ser inflexível: ao receber imagens e vídeos de cunho sexual manipulados ou gerados artificialmente, o comportamento de quem criou e de quem compartilhou deve ser considerado inadmissível, de forma que esse  tipo de conduta passe a ser inibida.

   

Ainda segundo a docente, as instituições também têm um papel fundamental nesse movimento, sendo importante que os votos sejam escolhidos com sabedoria, como um investimento naqueles que elaboram as leis, e que esses sejam cobrados para executá-las corretamente. Tassis afirma, então, que “a transformação passa pelo macro, ela passa pelas leis, ela passa pelas instituições, mas ela passa muito mais, eu acredito, por nós, nas nossas micro-relações cotidianas, que é o que tem a força no conjunto para mover essa estrutura machista, misógina, violenta, em todas essas formas”. 

   

Assim, tão importante quanto saber reconhecer conteúdos falsos e manipulados, é estar ciente da responsabilidade social dos cidadãos de, ao se depararem com esses materiais, não deixarem passar de forma impune e lutarem para que esse cenário seja suprimido. Para isso, é necessário, também, conhecer as leis que amparam vítimas de conteúdo pornográfico falso, o que igualmente auxilia a dar o apoio necessário e orientar aquelas que passarem por essa situação. 

   

Portanto, é preciso o movimento da sociedade como um todo, assim como das instituições, para mudar o panorama em que imagens e vídeos gerados ou manipulados por meio da inteligência artificial são utilizados como forma de degradar, punir, ameaçar e ferir a reputação e a identidade de mulheres e meninas. 

   

A educação digital é essencial, sendo um mecanismo poderoso contra a tecnologia ao permitir que os indivíduos, com base no senso crítico ou com auxílio de ferramentas de detecção, identifiquem conteúdos falsos e interceptem o ciclo de compartilhamento. Ademais, ter conhecimento das leis que resguardam as vítimas é crucial para protegê-las e agir rapidamente frente a situações de divulgação não consensual de conteúdos íntimos manipulados. 

   

No vídeo a seguir, abordamos a questão das deepfakes e as medidas a serem tomadas em situações como essa para se preparar e agir, se necessário.

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Trabalho realizado por Ana Clara Sousa e Bianca Reis. Edição: Ana Clara Sousa

Sou de Uberlândia, MG, e tenho 19 anos. Interessada pela leitura e pela escrita desde criança, atualmente estou no 3° período do curso de Jornalismo da  Universidade Federal de Uberlândia. Vejo, no jornalismo, a possibilidade de expor cenários e transformar realidades. 

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Ana Clara Sousa Machado

Quem somos

Sou mineira e tenho 20 anos. Me interesso por livros, hobbies manuais e cozinhar. Atualmente, estou no 3° período de Jornalismo por ver nessa área uma oportunidade de ressignificar a realidade através da escrita.

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Bianca Reis Souza

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